Chegou a hora de exportar os dados para a sua análise bibliométrica e surge a dúvida que trava muita gente no começo: usar o Web of Science ou o Scopus? As duas são as principais bases de dados bibliográficas do mundo, as duas aparecem em quase todo artigo metodológico que você lê, e a maioria dos tutoriais simplesmente não explica quando escolher uma ou outra.
A escolha não é detalhe. A base define quais artigos entram na sua revisão, quais métricas você terá disponíveis e, no limite, o que o seu mapa bibliométrico vai mostrar. Escolher errado significa refazer a coleta depois, ou pior, defender na banca um corpus que não representa bem a sua área.
Neste post você vai entender as diferenças concretas entre Web of Science e Scopus, tais como cobertura, métricas, acesso e exportação, e sair com um critério claro para decidir qual base usar na sua pesquisa, ou se vale combinar as duas.
Neste post:
- As duas bases, em uma frase cada
- Cobertura: quantos periódicos cada uma indexa
- Métricas e indicadores disponíveis
- Acesso e custo no Brasil
- Exportação para análise bibliométrica
- Afinal, qual base usar?
- Usar as duas bases ao mesmo tempo
- Próximos passos
As duas bases, em uma frase cada
O Web of Science (WoS), mantido pela Clarivate, é a base bibliográfica mais antiga, herdeira do Science Citation Index criado por Eugene Garfield nos anos 1960. A coleção principal, a Core Collection, é conhecida por uma seleção criteriosa: entrar nela é um selo de qualidade reconhecido na avaliação acadêmica.
O Scopus, lançado pela Elsevier em 2004, nasceu mais novo e adotou desde o início uma política de cobertura mais ampla, incluindo um número maior de periódicos, conferências e títulos de fora do eixo anglófono.
Essa diferença de origem explica quase tudo o que vem a seguir: o WoS prioriza seletividade e tradição; o Scopus prioriza abrangência e velocidade de indexação.
Cobertura: quantos periódicos cada uma indexa
Este é o ponto que mais afeta diretamente a sua revisão, porque define o tamanho e a composição do corpus.
O Web of Science Core Collection indexa mais de 22 mil periódicos (o Journal Citation Reports de 2025 contabilizou 22.249 títulos, distribuídos entre ciências, ciências sociais e artes e humanidades). A cobertura temporal vai de 1900 até hoje. A seleção é mais restritiva: nem todo periódico é aceito, e essa curadoria é justamente o que dá ao WoS sua reputação.
O Scopus indexa um número maior de títulos ativos, mais de 28 mil periódicos, além de uma cobertura mais extensa de anais de conferência e capítulos de livro. O conteúdo mais antigo remonta a 1788, e a base reúne títulos de mais de 7 mil editoras no mundo.
Na prática, o que isso significa para você:
- Em áreas consolidadas e internacionais (medicina, física, química), as duas bases cobrem bem o núcleo da literatura, e a sobreposição entre elas é alta.
- Em ciências sociais, humanidades e áreas emergentes, o Scopus tende a recuperar mais artigos, por indexar mais periódicos e mais conferências.
- Para produção brasileira e latino-americana, o Scopus geralmente tem cobertura mais ampla de periódicos regionais e em português, um fator decisivo se o seu tema tem forte produção nacional.
Atenção: cobertura maior não é automaticamente melhor. Mais artigos também significam mais ruído. O que importa é a base representar bem a literatura do seu tema, e isso depende da área.
Métricas e indicadores disponíveis
As duas bases calculam indicadores bibliométricos, mas com métricas próprias e não intercambiáveis.
No Web of Science, a métrica de referência é o Journal Impact Factor (JIF), publicado anualmente no Journal Citation Reports. É o indicador de impacto de periódico mais tradicional e ainda o mais citado em processos de avaliação. O WoS também classifica os periódicos em quartis (Q1 a Q4) por categoria.
No Scopus, os indicadores principais são o CiteScore, o SJR (SCImago Journal Rank) e o SNIP (Source Normalized Impact per Paper). O SJR pondera as citações pelo prestígio da fonte que cita; o SNIP normaliza pelas diferenças de hábito de citação entre áreas, útil para comparar periódicos de campos distintos.
Para o índice h, tanto o de autor quanto o de periódico, as duas bases calculam o valor, mas o resultado será diferente em cada uma, porque cada base conta um conjunto distinto de citações. Esse é um ponto que confunde muita gente: não existe um índice h “verdadeiro”, ele depende da base. (Se quiser entender melhor esse indicador, veja o post O que é o índice h e como interpretá-lo.)
A consequência metodológica é direta: misturar métricas das duas bases no mesmo argumento é erro. Se você usa JIF, está no universo WoS; se usa CiteScore ou SJR, está no universo Scopus. Deixe claro de onde vem cada número.
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Acesso e custo no Brasil
Tanto o Web of Science quanto o Scopus são bases por assinatura, caras quando contratadas individualmente. Mas as duas fazem parte do acervo do Portal de Periódicos da CAPES, acessível gratuitamente para alunos e docentes de instituições participantes (praticamente todas as universidades públicas e muitas privadas).
Na prática, o acesso costuma se dar pela rede da universidade ou via login institucional. Se você está em um programa de pós-graduação, há grande chance de ter acesso às duas bases sem custo. Vale confirmar no portal da sua biblioteca quais bases a sua instituição assina, em alguns casos, há acesso a uma e não à outra, e isso pode, por si só, decidir a escolha.
Se a sua instituição assina apenas uma das duas, use a que está disponível: uma análise bem feita em uma base sólida vale mais do que insistir em uma base à qual você não tem acesso estável.
Exportação para análise bibliométrica
Para alimentar ferramentas como o VOSviewer ou o Bibliometrix, o que importa é a base exportar os metadados completos, autores, afiliações, referências citadas, palavras-chave e resumo.
O Web of Science exporta em formato de texto simples (.txt, “tab-delimited” ou formato “plain text”), que é lido nativamente pelo VOSviewer. O fluxo é direto e está detalhado no post Como exportar dados do Web of Science passo a passo.
O Scopus exporta em CSV (.csv) e em RIS, também compatíveis com as principais ferramentas bibliométricas. O passo a passo está em Como baixar dados do Scopus para bibliometria.
Dois pontos de atenção na hora de exportar:
- Limites por exportação. As duas bases impõem tetos de registros por download (a quantidade exata muda conforme o tipo de exportação). Em buscas grandes, você precisará exportar em lotes e juntar os arquivos depois.
- Selecione todos os campos. O erro mais comum é exportar sem marcar “referências citadas”. Sem esse campo, análises de cocitação e acoplamento bibliográfico ficam inviáveis. Marque o conjunto completo de metadados sempre.
Ambas funcionam bem com VOSviewer e Bibliometrix. A escolha da base, portanto, não esbarra na ferramenta de análise, qualquer uma das duas serve.
Afinal, qual base usar?
Não existe uma base universalmente superior. A escolha certa depende de três perguntas:
1. A qual base você tem acesso estável? Se a sua instituição assina apenas uma, a decisão está tomada. Acesso confiável vale mais do que preferência teórica.
2. Como é a literatura do seu tema? Áreas internacionais e consolidadas são bem cobertas pelas duas. Se o seu tema tem forte produção brasileira, regional ou em áreas emergentes e de ciências sociais, o Scopus tende a recuperar um corpus mais completo.
3. Qual métrica a sua área valoriza? Se o seu campo e a sua banca pensam em termos de Fator de Impacto e quartis do JCR, o WoS conversa melhor com essa linguagem. Se o referencial usa CiteScore ou SJR, o Scopus é o caminho natural.
Como orientação geral: para a maioria das dissertações brasileiras, o Scopus costuma oferecer cobertura mais ampla e exportação confortável, sendo um bom ponto de partida. O Web of Science é a escolha quando a tradição e a seletividade da base importam para o argumento, ou quando a sua área é fortemente representada nele.
O que não vale é escolher no escuro. Seja qual for a base, registre na metodologia qual você usou, a data da coleta e a string de busca, isso torna a sua revisão replicável.
Usar as duas bases ao mesmo tempo
É possível, e cada vez mais comum, combinar Web of Science e Scopus em uma única análise, para ampliar a cobertura e reduzir o viés de uma base só. Mas isso exige um cuidado que não pode ser pulado: a remoção de duplicatas.
Como há grande sobreposição entre as bases, o mesmo artigo aparecerá nos dois arquivos exportados. Se você simplesmente juntar tudo, vai contar artigos em dobro e distorcer toda a análise. A deduplicação costuma ser feita por DOI (o identificador único de cada artigo) e, na ausência dele, por título e ano, etapa em que ferramentas como o Bibliometrix, no R, ajudam bastante, porque já trazem funções de mesclagem e remoção de duplicatas.
Combinar bases é uma decisão metodológica legítima, mas trabalhosa. Para um primeiro estudo bibliométrico, uma base bem trabalhada é mais do que suficiente e mais fácil de defender. Deixe a combinação para quando o objetivo justificar o esforço extra.
Próximos passos
Neste post você viu as diferenças concretas entre Web of Science e Scopus: o WoS, mais antigo e seletivo, com o Fator de Impacto como métrica de referência; o Scopus, mais novo e abrangente, com cobertura maior de periódicos regionais e métricas próprias como CiteScore e SJR. Viu também que, no Brasil, as duas costumam estar acessíveis pelo Portal CAPES, que ambas exportam bem para o VOSviewer e o Bibliometrix, e que combinar as duas é possível desde que você remova as duplicatas com cuidado.
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